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Operações estabelecedoras e fantasia em Peter Pan

O filme de Peter Pan está cheio de fantasia. Ele é narrado por Wendy, uma mulher que, quando garota, viveu a maior das aventuras. Ela conheceu Peter Pan, o menino que não queria crescer, que vivia com os meninos perdidos e uma fadinha encantada e tinha por inimigos mortais o terrível Capitão Gancho e sua tripulação de piratas. Todos estes personagens viviam na Terra do Nunca, uma terra de sereias, índios e crocodilos gigantes. Wendy aprendeu a voar e a lutar com espadas ao lado dos meninos perdidos, mas ao final da história preferiu voltar para sua família e, junto com ela, levou todos os meninos perdidos que escolheram se tornar adultos – todos, com excessão de Peter, que mantém viva a lenda do menino que não quer crescer.

O comportamento de fantasiar geralmente parece se tratar da relação entre estímulos antecedentes e consequentes produzidos pela própria pessoa. Uma criança, quando brinca de fantasia, “imagina” o cenário em que se comportamenta, por exemplo, imagina a casinha, o dinheiro e as pessoas com quem está interagindo. As consequências que produz para o seu comportamento também parecem imaginados, como a imitação do comportamento verbal de outra pessoa ou qualquer alteração do ambiente que, de fato, não está acontecendo – é apenas fantasia. Mas as variáveis mais relevantes para o comportamento de fantasia são as operações estabelecedoras de privação ou estimulação aversiva fortes. Uma operação de privação, como quando uma criança tem que brincar sozinha, tornaria o interlocutor fantástico um estímulo reforçador forte; e estimulações aversivas tornariam mais prováveis qualquer comportamento que as removessem – nem que fosse necessário “viajar na imaginação”, como o fazem muitos psicóticos prestes a serem severamente punidos. Dessa forma, o comportamento de fantasiar tem função de diminuir o efeito das operações estabelecedoras em operação.
Wendy, então, poderia ser interpretada como uma criança fantasiando. No começo da história, podemos vê-la se comportando como uma criança muito feliz e que estes comportamentos produzem reforçadores poderosos para ela. Ela conta histórias para os irmãos, faz bagunça pelo quarto e se diverte com a sua cachorra-babá. Não tem muitos modos, debocha da tia e nem pensa em amor. Porém estabelece-se uma contingência em que os estímulos que reforçam o comportamento de Wendy começam a ser retirados dela: problemas no colégio e de outra natureza colocam a menina em risco de ter que ir morar com a tal tia e receber treinamentos para se tornar uma “boa noiva”. Ir morar com esta tia ainda se trata de uma ameaça de privação no futuro- lá ela não poderá brincar com outras crianças. A tia também puniu os maus modos de Wendy e ir morar com ela significa que cada pisada na bola será seguida por reprovação. E mais, o que a tia tem a oferecer para Wendy são estímulos que reforçam o comportamentos de adultos, que ainda não controlam o comportamento da menina – ela ainda não está madura para isso. A trama é lançada quando Wendy está para ficar sob privação e sob estimulação aversiva.
Então ela se põe a fantasiar. Na Terra do Nunca, Wendy se comporta de forma a produzir os reforçadores mais poderosos que ela conhece. Ela conta histórias para os meninos perdidos e para os piratasm – e todos adoram. Ela tem sua prórpia casinha de flores, conhece as sereias, voa pelos céus e se torna princesa e pirata como as protagonistas de seus contos. Enquanto isso, ela tem por perto o príncipe que já esteve em seus sonhos (Peter Pan está lá, ao seu lado e, enquanto Wendy vive sua fantasia, também cresce). Peter é um agente reforçador que esperou Wendy amadurecer para lhe entregar o seu beijo escondido. Agora, não mais sob coerção e privação, Wendy pode crescer e se comportar como uma adulta – e aprendendo por contingências de reforço positivo.

Posted in Beh. Radical.

2 Responses

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  1. THAIS MAIA said

    É ótimo podermos ter essas Análises Funcionais de contos!!!
    Seria excelente termos aqui um ítem fixo, sempre, com análises funcionais de contos e/ou filmes.
    Estou aprendendo muitíssimo com vocês!
    Muito obrigada!
    Thais

  2. Cida said

    Amei o texto. Estou fazendo especialização na área comportamental e às vezes, ainda acho os termos meio difícil e dá preguiça de ler. Mas, o seu texto li rapidamente do começo ao fim. Bem explicativo e de linguagem fácil de entender. Parabéns Rodrigo! Expero encontrar mais textos seu para eu ler.
    Cida.

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