“Certas questões sobre a mente tem sido discutidas há mais de 2.500 anos e ainda permanecem sem respostas. Como pode, por exemplo, a mente mover o corpo? A questão foi colocada ainda em 1965 por Karl Popper nos seguintes termos: ‘O que queremos compreender é como tais mecanismos não físicos (…) podem atuar de modo a acarretar mudanças físicas no mundo físico’. E, é claro, também queremos saber de onde (e como) se originaram estes mecanismos. Para esta questão os gregos já tinham uma resposta simples: dos deuses. Como Dodds já assinalou, os gregos acreditavam que se um homem se comportava de modo insensato era porque um Deus hostil havia introduzido uma paixão desenfreada em seu peito. Um deus amistoso poderia dar a um guerreiro uma quantidade extra de inteligência, com o que poderia lutar brilhantemente. Aristóteles pensava que existia algo de divino no pensamento, e Zeno julgava que o intelecto era (o próprio) Deus. ” (Beyond Freedom and Dignity, Skinner, p. 14, parênteses adicionados)
Todas as ciências originaram-se da Filosofia e posteriormente se separaram dela. Antes que a astronomia existisse, por exemplo, especulava-se a respeito da organização do universo a partir do pressuposto de que Deus havia criado tudo daquele jeito.
As pessoas desenvolviam um raciocínio bem peculiar a partir de suas experiências pessoais. Com relação ao universo, era mais ou menos assim:
1 – Todos os eventos importantes acontecem na terra, então ela deve ser o centro do universo, tudo gira em torno dela (geocentrismo);
2 – O círculo é a forma geométrica mais perfeita, sendo assim, o sol deve girar em torno da terra obedecendo uma órbita circular. A lua, certamente, gira em outra órbita circular mais próxima. As estrelas se organizam em torno do conjunto, formando assim uma esfera perfeita.
A partir do momento em que as pessoas começaram a tentar entender os objetos e fenômenos naturais por meio da observação sistematizada, as coisas começaram a mudar. Nascia então, a ciência!
Galileu, por exemplo, apontou o telescópio para a lua observando que esta era cheia de crateras, ou seja, estava longe de ser a esfera perfeita que os filósofos imaginavam – rompendo então com a filosofia. Ele rompeu também com a idéia de que a terra era o centro do universo, apoiando a idéia de Copérnico. Muitas idéias de Aristóteles sobre Física, por exemplo, foram colocadas em xeque com as observações de Galileu (vide links nos nomes deles).
Algumas diferenças entre o raciocínio filosófico e o científico são:
• O raciocínio desenvolvido em Filosofia parte de suposições para conclusões. A medida que este vai se desenvolvendo, os argumentos vão tomando forma, criando-se então sentenças do tipo “se isto fosse assim, então aquilo seria assim”. O caminho traçado pela ciência é o caminho oposto. O raciocínio científico configura-se a partir de sentenças como “isto foi observado; o que esses fatos estão nos mostrando, e a que outras observações eles podem levar?”;
• A verdade filosófica é absoluta: se estas premissas forem enunciadas explicitamente, estando também correto o raciocínio, as conclusões seguem-se necessariamente. A verdade científica, pelo contrário, é sempre relativa e provisória: é suscetível de não ser confirmada por novas observações;
• As suposições filosóficas nos remetem a abstrações além do universo natural, como Deus, harmonia, forma ideal, assim por diante. As suposições científicas que são usadas na construção de teorias referem-se somente ao universo natural e sua possível forma de organização.
Eles acreditavam que estas substâncias eram reais e ficavam escondidas dentro dos materiais (embora ninguém nunca as tivesse encontrado). A partir do momento em que os estudiosos deixaram de lado estas especulações e começaram a desenvolver estudos através da observação sistemática da mudança na matéria, nasceu o que hoje se chama de Química, que dentre outros benefícios nos trouxe a tão útil farmacologia.
O rompimento da biologia com a filosofia e a teologia se deu do mesmo modo. Antigamente o raciocínio que imperava era que, se existia alguma diferença entre os seres vivos e as coisas não vivas, era porque Deus havia dado às coisas vivas alguma coisa que as não vivas não tinham ganhado. Alguns chamavam essa “coisa” de alma; outros, de vis viva. Como o corpo era movido por entidades sagradas, ele era intocável. Ninguém poderia realizar nenhum tipo de procedimento invasivo nele pois, se o fizesse, estaria desrespeitando a Deus. Só a partir do século XVII que os cientistas começaram a dissecar animais e estudar o funcionamento do corpo humano.
Willian Harvey observou como o coração bombeava o sangue através do corpo, descobrindo assim que o funcionamento do ser humano mais parecia com o de uma máquina do que com a ação de uma suposta força mágica. A partir daí, os estudiosos começaram a abandonar a idéia de que o organismo era movido por forças mágicas como a alma ou a vis viva, passando então a estudá-lo de forma sistemática, o que permitiu diversos avanços à medicina que com isto ganhou statuscientífico.
Em todos os exemplos citados, houve muita resistência com as novas descobertas científicas. Galileu, por exemplo, foi condenado pela Igreja Católica, sendo obrigado a voltar atrás em Roma e dizer que o heliocentrismo era apenas uma hipótese. Algum tempo depois, ele voltou a defendê-lo.
E, como não poderia deixar de ser, com a psicologia não é diferente. Sua ruptura com a filosofia é relativamente recente e, até a década de 1940, a maioria das universidades não tinha um departamento de Psicologia. Os professores de Psicologia em geral ficavam em departamentos de Filosofia.
Na verdade, ainda hoje, a Psicologia é altamente influenciada pela Filosofia e até pela Teologia. A Psicologia evoluiu muito pouco na prática desde os tempos de Platão e Aristóteles. Ainda hoje os psicólogos prendem-se excessivamente a questões semelhantes às que as outras ciências citadas se prendiam antes de adquirirem condições de evoluir a ponto de trazer maiores benefícios para a sociedade. Não digo que não traziam antes, mas deixo a questão: como estaria o mundo hoje se as ciências citadas não tivessem desenvolvido métodos sistematizados para abordar seus objetos de estudo, continuando assim a tratar deles com base em simples inferências não demonstráveis?
Em uma próxima postagem, trarei a tona a discussão que Skinner faz no primeiro capítulo de seu livro Beyond Freedom and Dignity* a respeito da necessidade de uma ciência psicológica que trabalhe com os problemas práticos da realidade e busque soluções para estes, deixando de perder tempo com questões impossíveis de serem estudadas, conjecturando teorias e mais teorias sem fundo natural.
*Livro “Para além da Liberdade e Dignidade”, traduzido como “O Mito da Liberdade” para o português.
Esequias Caetano de Almeida Neto.
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